“volta completa”
Princípio silencioso: Sempre que tenho muito a dizer, acabo não falando nada. Metade opção, metade ordem natural das coisas, emudeço, completo uma volta inteirinha pra dentro, agora sei de tudo e logo percebo: Sou mais valioso calado.
E como eu ia te dizendo (hoje cada palavra é um parto)
Cumprindo a lógica do arrependimento, assumo de cara que não tenho exercitado mais aquele tom de desabafo de que tanto me valia em outros tempos. Não precisa ser vidente, qualquer um que chega aqui já saca de primeira que me encontro em permanente observação. Muito atento ao nada, registro tudo com o egoísmo dos meus olhinhos cor-de-qualquer-olho-de-gente-normal e assumo que talvez por opção, tenha mesmo andado com poucas palavras no bolso. Pausa prum breve aviso: Rafael, meu querido, estou seguindo a tua dica, ostento agora em mãos um copo de bar que roubei outro dia, e esclareço logo, que o delito se deu não pela transgressão e sim muito pelo conforto. Ou pelo motivo contrário, ando muito confortável e o fato é que o copo ainda tinha dentro mais uns goles. E sinto isso o tempo todo, que ainda tenho mais uns goles a tomar antes de dizer alguma coisa, antes de agir por impulso ou me pronunciar oficialmente. Retomo: São sempre nos mesmos momentos, tem dias que só me dou conta de que o tempo passa porque a fome bate e batem religiosamente de três em três horas saudades de alguém, de um alguém muito específico que sabe que por ser específico me leva sem fazer a menor cerimônia, me invade o pensamento e quando vi, já fui. E eu me deixo tão fácil que logo esqueço o que dizia, aquela história que eu comecei a contar no início da rua, meu bem, confesso pela lacuna que era tudo mentira, desculpa, já passam de meia noite e eu não consigo mais mentir pra você. Seja o que for, abdico o discurso e me entrego as tuas pintinhas, ao desafio de caminhar junto de alguém e aquela velha história toda, arranjo uma desculpa e começo a sorrir. Percebe que é felicidade? Cada vez que a tua boca abre é um furacão dentro de mim, por isso não se faz de boba, vem aqui, me beija, para de fazer de conta que tem alguma coisa mais importante pra fazer daqui a pouco, me olha com fome que eu troquei toda minha prosa por carinho. E que sorte a minha estar mudo todo esse tempo, ter tanta dificuldade assim até pra te escrever um bilhete, levo dias pra rabiscar duas linhas pequenas no teu mural. E concluo: Se quiserem me prender, se ameaçarem tomar meu emprego por não escrever, por não querer mais contar a história daquela ex-qualquer-coisa, daquela festa, daquela frustração modelo anos dois mil e dez, que me prendam, que me demitam, que me escorracem, mas que provem antes que estar feliz é crime. Até lá, me encolho quietinho no teu abraço, aprecio teu perfume e aproveito que até a Tijuca, ao menos na minha cabeça, demora um montão.
E segue o trem…
Depende do Referencial.
É muito injusto, é de um disperdício imenso, de um vacilo tremendo resumir todas as coisas a perdas e ganhos. Balança a cabeça, mas no fim das contas não tem outra… Enche o copo, manda uma mensagem, conta os azulejos e a constatação continua alí. Sentada, sorrindo com deboche do teu lado, escorando os pés numa cadeirinha dessas de alumínio com patrocínio da Seven Up que não existe mais, e você até queria que ela também não existisse mais, só que sem querer as coisas vão ficando meio sem controle e quando se dá conta a verdade vira um elefante - Nosso maior erro é deixar que as verdades se tornem elefantes - Disfarça, finge que é bobagem, mas quando para pra pensar, é tudo sobre perdas e ganhos de novo. Você faz Yoga terças e quintas em Copacabana, diz que busca paz interior, doa alimento não perecível pra pagar meia entrada em boate, paga os dez por cento do garçom até quando bebe um cafezinho em buteco, e mesmo assim, acaba percebendo que inevitavelmente só ganha ou só perde, e que pior, não consegue aceitar um tipo de estado de convivência onde as coisas não se ranqueiam, onde a disputa maior é só conseguir existir. Nessa parte eu lembrei do Paul Maccá falando “Boy, you gonna carry that weight”, e eu sempre respondia: Não vou carregar porra nenhuma, a vida é minha, e batia o pé, sonhava acordado, né? Sonhava com o mesmo amor com que sonhava as coisas da adolescência, com ficar rico e tomar um porre com o Serge Gainsbourg, esperar ele cochilar e pegar a Brigitte Bardot na curvinha da Torre Eiffel - Bastardo. Outro dia eu fiquei velho, percebi que tava citando Kurosawa em qualquer conversa, que qualquer gol que o Deivid perdesse no Flamengo merecia um termo em francês pra descrever, uma nomenclatura específica pra uma mediocridade recorrente - Porra, fiquei arrasado, o maior medo que eu tenho na vida é de virar alguém desnecessário, descartável, chorei compulsivamente porque era tudo sobre perder ou ganhar outra vez, acendi um cigarro e assim sem mais nem menos, parei de achar graça na Amelié Poulain, não me culpem. Resolvi o problema com facilidade quando passamos a caminhar juntos, nós dois, eu e meu ego, e pra não mentir, corrijo que às vezes eramos três, eu, meu ego e minha garota que a essa altura já estava de saco cheio de tanta reflexão, fazendo carinha de sono, e eu me derreto com uma facilidade que nem sei como explicar sem parecer “naive”. Perdi novamente, mas perder a essa altura era ganhar entende? - O rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre - achava lindo esse verso, achava lindo minha menina dormindo no banco de trás do carro e então, nos seus olinhos fechados, uma nova constatação: O que importa não é chegar a felicidade, o que importa é fazer o caminho com equilíbrio, a disputa até aqui se fez imprescindível, a troca, o perder ou ganhar, é uma questão de ponto de vista, depende do referencial, é aquilo de estar aberto ao que pode acontecer e valer quanto pesa. Dei-lhe um beijo de boa noite e voltei a sorrir outra vez, engraçado como a gente faz tempestade em copo d’água num espaço de tempo tão curto.
Maduro
E falava aos montes, me contava os defeitos na mão e algumas vezes quando me olhava, compassava meu futuro com os olhos, coisa de velho. E mexia as mãos, gesticulava outra vez e falava e falava sem fim. E eu, moleque, curioso, atento, criado aos pontapés divinos, com rosto pintado de asfalto, filho de meu pai Vento e minha mãe Sangue, salvaguardado nove meses pelo seu ventre, esculpido de barro e tripas, aguardava as profecias, mas já sabia de tudo. Era como se meu pai me tivesse revelado antes: - Meu filho, aguarda que teu tempo vai chegar, aceita que falta pouco, e que o tempo da gente não é tempo universal, não é tempo de fruto cair de árvore. E me apontava as folhas, me apontava o coração, me benzia com meio cálice de água da bica e me afagava a orelha. Me deram então um nome novo, um cordão de prata com medalhinha de São Judas Tadeu, ofereceram uma bolsa de lã e um sapato de lona azul, cortaram meu cabelo e ao amanhecer, parti. E aos poucos fui entendendo sozinho o lembrete, que as lágrimas secam também sozinhas e que devemos doar só o que é da gente mesmo, que devemos sempre manter as mãos desocupadas porque nunca se sabe o que está por cair em nossos braços. Qualquer coisa que me acontecesse, tinha anotado no peito uma cidade inteira, de memória quatro amores, onze linhas de ônibus circulares, e a minha escolta era feita por meia dúzia de amigos gentis que eu sei que me acolheriam de qualquer forma. E mais do que isso, bicho da terra não se mete com mar, não passo debaixo de escada e prometi não falar mais do que devo. Meu caminho passou a ser então de homem, de buscar a verdade do homem, de entregar tudo que tenho ao amor e apostar meus trocados na humildade. Se funciona, não sei, não deu tempo, vamos ver ainda, aguardo um contato, uma luz que se acenda, que me inspire sem prazo. Prezo muito pelo que tenho, sou filho do Vento, sou filho do sangue, criado no fogo, me fiz aprendiz, me fiz aprender que o tempo não se conta de minuto em minuto. Aos futuros amores, fica o aviso: Que venham e fiquem, se acomodem, me remontem, estou disposto. Fechei os olhos, não me oponho ao que vier, se for, que seja, ventura.
Sobre Domingo
Aos domingos, toda palavra é um parto, todo assunto é disperso, desleixado, e não promete muito mais do que já é. Todo assunto dominical carrega em sua pronúncia uma gestação que embora não espere os ditos nove meses, pode ser trocado por qualquer chuva de fim de tarde, qualquer notícia de última hora ou parente que aparece pra fazer visita de surpresa. Domingo é parceiro da preguiça, e por definição, aos domingos, todo cuidado é pouco, todo movimento é suspeito ao levantar depois de meio dia. Todo domingo é proveniente de um acumulo de dias, de trabalho, de tesão, de muito cansaço. Todo domingo é desculpa pra ficar em casa, pra brigar com o tio e dar atenção as plantas, ao cachorro. E seguindo a logística que aprendi com Jorge Ben, domingo é boa data pra se apaixonar, porque domingo é sinônimo de amor também. E por ser também parte de amor, deve-se prestar muita atenção, pois cada domingo se molda de acordo com a ocasião. - Não devemos chorar aos domingos. Está previsto em lei universal que tristeza é armadilha, que nostalgia é falta de oxigenação no cérebro e que a solidão só pega quem anda desavisado, ou pensando na segunda. - Não devemos pensar na segunda aos domingos. Está assegurado pela lei natural dos encontros que a segunda é inimiga por conveniência da novidade, da cerveja na Voluntários da Pátria, do rolé em Santa Tereza. Domingo é intervalo entre Flamengo e Vasco com gol do Zico nos quarenta e cinco do segundo tempo. Porra, domingo é irado.
Primeiro de Janeiro
Olha, eu acho melhor pararmos por aqui, já ficou chato até pra quem vê de longe, ficou seco, sem graça, deselegante, insosso, e bem, o fato é que eu acho que já deu. Sei lá, faz tempo, faz um par de meses que eu venho tentando lhe dizer: “Olha, meu bem, as coisas não são assim, elas não funcionam mais assim”, mas isso já é demais, fico nervoso só de pensar em me ver cometendo os mesmos erros outra vez. Errar é de boa, existe muita graça em errar, mas não desse jeito, não existe tanta graça em se iludir, manter estruturas desgastadas só por manter, por fingir, até no faz-de-conta existe uma conta a serem cobrados os dez por cento do garçom no final da discussão. E meu amor, não tente me convencer do contrário, não estou muito empenhado em entender as suas metáforas e muito menos decifrar as lacunas que o teu silêncio vai deixando na minha cabeça. Já chega de me machucar, não me escreve mais nada, não me diz mais uma palavra, não aponta esse poema do Caio Fernando Abreu pra mim outra vez, põe essa merda no chão, não vai dar certo, por favor. Saudade é uma coisa que a gente afoga com a novidade, e vai estancando os sangramentos por janeiro inteiro até chegar o carnaval e acabarmos percebendo novamente que “se você fosse sincera, aurora”, já teria percebido que olha: amar não é nada disso aí não.
E a menina, coitada, frágil como uma cristaleira, de tantas expectativas minhas, desabou.
E a menina, coitada, frágil como uma cristaleira, de tantas expectativas minhas, desabou. Desabou e deixou-nos de aviso o fracasso, porque como se diz por aí, não conseguiu levantar, virou outra, virou pó. Fez-se grão e buscou refúgio na poeira entre uma nota ou outra num livro desses que não sai da estante. Acho até que virou passado, sentiu-se pesada e pôs ponto, aposto. Partiu-se no meio e parou de pulsar. As fotos, as cartas, os beijos, constato que é tudo datado de março, de abril, distante de hoje, de longe daqui, só piora, meu pai já dizia que com o tempo só piora.
Se eu sentia saudades? Não lembro, não lembro mesmo, preferia pensar que se hoje era quarta, pra almoçar tinha lentilha, que amanhã seria quinta e choveria a tarde toda, e depois viria sexta, e se eu pudesse, só se me permitisse a vida, eu chegaria até sábado. E olha, num sábado dificilmente eu lembraria dela, talvez caminhasse na praia, virasse um cálice de rum, de pinga, jogasse ping-pong até ficar exausto, mas não moveria lembrança, não moveria um braço, um dedo por ela, não voltaria atrás.
E a menina, coitada, frágil como uma lembrança, de tantas expectativas minhas, continuou vivendo. Num canto qualquer, dois pontos de trêm depois da Central, teve filhos, teve tuberculose, teve tudo e se morreu, não sei. Planejei um dia lhe fazer uma ligação, uma visita, convidar prum café, mas é tudo datado de semana que vem, sei lá, não estou preocupado com isso agora. Tenho que alimentar meus gatos, comprar o jornal, descer o lixo, e eu duvido, francamente eu duvido, que ela esteja pensando em mim agora. Que esteja sozinha ou com saudades, já faz tempo, e tempo é foda. A gente vai ficando velho e aprendendo a esperar cada vez menos, e constatando que ainda assim, muita gente continua a desabar. Doem as costas, doí o coração, e que dia é hoje mesmo? Hoje é passado já, aqui nesse quarto o presente não existe.
Eu te odeio e vá a merda!
-Tá bem.
Gemeram de raiva as sobrancelhas, trincou a cara redonda e preencheu de um ódio infantil a boca carnuda cor-de-açaí. Os dentes treparam o canto da língua e de birra rasgaram um pedacinho da carne. O esporro que a porta fez quando fechou com toda aquela força que ela quis fazer, me lembrou uma breve cena no supermercado mês passado: Pedro Henrique, aos berros, sete anos e já sem os dentes-de-leite, esperneava fervorosamente no chão frio do Carrefour, até que ouviu: “já falei que não vou comprar, caralho!”. Pensou por alguns segundos e levantou-se do chão em silêncio, numa soberba quase colonial, nada havia acontecido, muito sábio, e continuou empurrando o carrinho, sete anos, e entretanto já sabia bater as portas, e reconhecer que apesar de por hora estar sem muitos dentes, mantê-los no lugar era preciso. Me pus a imaginar que tipo de grosserias não cometeu no caminho, se não planejou um crime pra semana que vem ou se não cometeu suicídio a certa altura do campeonato. Pensei também que a culpa era minha, lembrei de alguém me dizendo que eu deveria ouvir mais aos outros, que não era a toa que nós seres humanos tínhamos duas orelhas e uma boca. Caralho, que bosta.
Ela disse: “Eu te odeio e vá a merda! “, mas se me odiasse mesmo, não tinha me dito, nem batido a porta, nem me ligado às sete da manhã do dia seguinte chorando aos prantos, aos prantos, eu juro, achei um absurdo me acordar tão cedo. Repetia no espelho, amar é possível, amar é o absurdo, “amar é tudo isso daí mesmo”, resumiu um amigo certa vez numa conversa de bar, “amar é aquela sensação…” e desistiu de completar a frase. Lembrou-se da ex-namorada dizendo: “Pare de se limitar André, pare de buscar quem você é, pelo que você vive, apenas viva, apenas seja”. André achou de uma sabedoria incrível, buscou respostas no budismo, meditou e desesperado uma vez até assistiu meia hora de um culto evangélico, (confessou falando baixinho), mas não conseguiu. Se maltratou por semanas, chegou a conclusão: Sua ex-namorada tinha toda razão, era perfeita, doce, bonita, transava bem, oscilava um pouco de humor depois de cheirar cocaína, mas era só às vezes, suportaria se fosse preciso, mas não naquele dia. Por isso, não se aceitavam conselhos de ex-namoradas naquela mesa, e nem se aceitavam desacatos, lembranças, nem ninguém que batesse a porta sem mais nem menos, era melhor desistir de concluir a frase. Não se deve aceitar argumentos de alguém que não sabe conviver com um “tá bem”, concluí. E se não fosse isso, nem eu nem André entenderíamos, muita coisa se esconde atrás de uma mesa, de uma porta, não compreendo bem de onde vem toda essa necessidade de mobiliar a porra da casa inteira.
- Eu te odeio e vá a merda, ela disse.
-Tá bem. Pontuou o rapaz.
Cine Odeon
Quando o sol se faz intruso e se arrasta às seis da tarde, se não for tarde demais, se o horário é de verão, vem de manso caminhar meu rosto, e ladrilhando a minha barba, eu me rendo, me revelo, o sol sempre que invade gosta de dizer tudo que sou. E eu me escondo atrás da pilastra, faço charme e checo a programação, hoje é dia de festival, hoje é dia de confessar, não entendo quase nada de cinema americano, mas sempre aplaudo no fim da sessão. No banheiro sou mais do que posso parecer no espelho, confesso um delito ao lavar o rosto, a verdade é que meu crime aqui foi só te amar demais. E a saudade, essa saudade que sempre se faz presente, me presenteia os olhos com teu reflexo no vidro da porta, e se eu tivesse mãos, correria pra abrir, mas não posso negar, meu compromisso é com os bolsos dessa calça que por hora visto. Decido então abrir um sorriso, mais tarde uma cerveja, uma ou outra vez estive tonteando por aqui com alguns amigos uruguaios, olhava pros lados mas só conseguia pensar em você, novamente confesso, não resisto, você sabe que eu não sou réu primário nesse tribunal dos teus olhos. Me engoliram certa vez, sentado estava e me engoliram de não sei o que, só sei que era sol, só sei que era feito de sol porque me revelou inteiro e tive medo. Tive receio daquele perfume voltar pro mesmo lugar de antes, de me impregnar, de trazer junto uma melodia simpática, que com o pesar do passar do tempo se fazia insuportável. Tive tranquilidade ao atender o telefone e o azar de não ter aparecido no momento certo, mal deu tempo das paredes te dizerem que eu te ainda te amava e que subir aquela escada era mais difícil do que parecia, mas que refazer o caminho à essa altura da vida, seria retrocesso pra você né? Bacana, te compraria um bilhete de trem e acenaria até o fim da plataforma, até o fim de mim, e findando a tempestade, viria novamente o sol me revelar meias-verdades num álbum plastificado, poses tímidas de um casal unido pelo tal “ventura”. Me senti estranho outro dia, senti que faltou um pedido de desculpas teu, e que faltou eu te avisar que o fulaninho te ligou quinze minutos depois de você sair pra avisar que o jantar não vai mais ser sábado, mas não me importei muito, tinha sono e o telefone da sala parecia estar distante demais.
Me senti estranho outro dia, sabia que mudaram as poltronas do Odeon? Estranho né? Parece que mudaram minha história de lugar também, mas o engraçado é que sempre me sinto bem-vindo aqui. Tem sempre um tapete vermelho estendido pra mim no Cine Odeon. Por isso eu volto amanhã, você vem?
Sobre estar vivendo
Tinha que ser como eu queria, tinha que dar tempo, tem gente que nasce com o sujeito com uma inclinação pra ser predicado que não dá nem pra medir. E eu mesmo, a essa altura da vida já não media mais que um-metro-e-setenta-e-pouco, mas com uma vontade danada de ter chegado aos oitenta, oitenta e pouquinho, de não ter perdido aquele show do Roberto Carlos no Maracanã. A gente só repara que o tempo passa entre uma lembrança e outra olhando o movimento pela janela do carro, entre uma chamada ou outra da minha vó, eu fui notando as rugas na voz, a dificuldade em lembrar das coisas, até chegar naquele ponto em que só podíamos conversar num dialeto emocionadíssimo repleto de: “você se parece muito com seu avô”, “pare de fumar”, “políticos são todos corruptos”, “você está muito gordo”, “sua namorada está muito gorda”, “termine o que você começou”, “saudades vó”, “a vida é um sopro, meu filho”.
Sopro mesmo, tempestade, vem rasgando, a vida não dá pé pra quem anda desagasalhado, aliás, lição valiosa essa, a gente aprende depois de um tempo que nem todo vento é benigno, nem toda verdade é verdade mesmo. Mania de quem já se decepcionou um pouquinho à mais do que a média, aprender a carregar só o que cabe no bolso, no coração, a gente reclama demais das coisas, cara. Eu vi meus irmãos se esfaqueando por dinheiro, ganhei no bicho um par de vezes, dei entrevista pro jornal, eu votei no Lula e já fiz sexo na escada do prédio antes da história das câmeras de segurança começar. E olha, é viciante, viver é o maior vício do ser humano, ninguém consegue ficar sem acordar por muito tempo, morrer é um saco cara. Morrer pensando em amanhã é chato demais, é uma sensação de não saber como termina o “Poderoso Chefão” só por ter pegado no sono. Chegar lá e dar de cara com um passado inalterável, um monte de coisas que a gente varre pra debaixo de um tapete eterno camuflado por fotos da última viagem à Disney com os filhos, é um saco. Posso tomar mais um gole?
- Pode, toma que tem mais na geladeira.
- Você vai ver, a humanidade vai perceber um dia, vão descobrir que metade dessas geladeiras, desses microondas, micro-computadores, micro-qualquer-merda davam câncer, que tava tudo errado por causa de um cálculo que alguém fez errado a muito tempo atrás. Calcular é errado cara, tentar prever o futuro a qualquer custo, prevenir-se demais, é negligenciar o estado natural de imprevisibilidade da vida. Não se aplica a tudo, mas a nossa geração é muito moralista, reacionária demais, eu me decepciono só de pensar.
-É foda, viver é foda.
-É por isso que eu vivo cara, por isso que eu tô vivendo, tem dias que eu desanimo, abaixo a cabeça, mas não dá, não tem jeito, não consigo pensar em fazer outra coisa.